domingo, 4 de maio de 2008

Noctívagos

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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Esperança

Teu coração inesperado previne-me "Acorda já cedo,
a vida não deixa raízes meu bem".

Quando Maria

Quando Maria resolveu dar volta ao mundo
fiz um chorinho na medida da tristeza
um poema pra amansar o susto
três pra chorar o futuro que não vinha
Quando Maria resolveu dar volta ao mundo
meu coração ficou miudinho
desconsertado
Quando Maria resolveu dar volta ao mundo
Eu só sabia mesmo era pensar:
_ Volta Maria, volta!

O Ribeirão das abelhas

Eram cheias de bem-me-quer
nas margens daquela ribeira

O Ribeirão das abelhas,
que eu nunca conheci.

Ouvi que a névoa pousava nele
como pousou agora em mim
ouvi que a névoa era pra ele
o que tem sido aqui pra mim:
anuviante
tristonha
onde as barcas não passam
não vemos as flores nas margens
Só passam fantasmas

Sem saber ele ilustrava
como era meu coração

O meu coração era pura névoa
Era a névoa do ribeirão.

sábado, 26 de abril de 2008

No coração das cidades a chuva

Como todos sabem, no mundo de hoje se inventou a mania de não tecer cerimônias. Imunes a isso ficaram as civilizações imutáveis: a das formigas, o mundo submarino e nossa abóbada celeste. Sendo assim, não será sem motivo de causa que esta história vai se desenrolar.
O verão estava por acabar, mas como é de praxe, a vida na metrópole continuava bem enxugada, sem tempo para esta ou aquela bobagem. No meio desta confusão um homenzinho cabeçudo e baixa estatura sentou-se ao leito de um sombreiro por vontade de descanso. Era uma árvore grande e fosca, carregando mais sol quente de asfalto que urucubaca de mulher bonita. Lá estava ele, sujo e enfumaçado. Dormindo.
A certa altura as sombras foram se multiplicando, até que o sol resolveu de vez, assoviar em outras vizinhanças. E tudo ficou muita sombra.
O homem continuou dormindo.
As ruas sempre estremecidas de tanto ônibus, passageiros e imigrantes. Mas como de súbito veio a chuva, que é sempre não dada à explicações; em cada ângulo de visão e esquina iam pipocando guarda-chuvas. Primeiro o dos velhinhos bem prevenidos, depois o das senhoras dona de casa que eram sombrinhas, mais tarde os safados guarda-chuvas dos estudantes, pagando ninharia para os vendedores ambulantes. Era assim que começava a chuva na metrópole. Mais percebida pelo circular deste utensílio que por seu gosto ou beleza. Para os machões a chuva era apenas prova de sua fortuita resistência, ignorando então o uso do objeto, eles atravessavam ferozes o chuvaral que estava só aumentando sem mesmo senti-lo. Já as crianças sabiam bem o que os outros estavam perdendo, porque pulavam e rolavam cantando lambendo a água (mesmo que pingada dos telhados mais empoeirados) era aquela água escorrida e separada uma forma de se lambuzar de natureza – mesmo que mais tarde fossem se esquecer.
Eis que o moço não acordava e permanecia intacto, ao relento; vulnerável. Os outros passavam mas não o viam (mesmo em sol às vezes não o viam), não o viam porque o guarda-chuva era grande e estavam bem protegidos. Ou então porque era pequeno e tinha de se ter cuidado onde pisava. As moças cuidadosas com as poças mais fundas, possíveis de molhar os pezinhos não olhavam senão para o chão. Aí estava nossa cidade, bem protegida.
Tudo corria normalmente, como todas as chuvas, até que o vento resolveu ir fundo. As folhas das árvores balançadas agora eram atiradas e esvoaçavam pelos percursos que o ar inventava sobre as ruas, uma verdadeira dança de folhagens. Entre estas, as artificiais também iam se desprendendo das paredes: os cartazes, novidades, papelada. Até mesmo dos escritórios, iam voando pelas janelas panfletos e documentos. O barulho agora era de janelas sendo fechadas e toda a gente correndo pra entrar em algum lugar. Tarde demais. A ventania foi violenta com os guarda-chuvas, arrebatando suas antenas, rasgando em três as capas pretas, destroçando e carregando. Agora eles também entraram no trânsito aéreo das folhas, o céu riscado de pano preto economizado.
Não era mais possível aquele homem continuar dormindo, o sombreiro balançou bem forte e um galho de amendoeira bateu-lhe a testa. Desde que se recostara na árvore, o dia escureceu e todos esses fenômenos haviam pincelado o cenário onde estava. Era um tal de correria e semi-pânico no pessoal, morrendo de pudores com a água forte e as piruetas do vento que parecia “medo do escorregão” segundo ele. O homem se escandalizou com o desespero dos cidadãos e decidiu que dançaria como os guarda-chuvas. Começou a cambalhotar na estrada, subir nos postes, pousar na escada. A chuva não era mais que uma cerimônia e o trânsito parou. Foi quando as irascíveis buzinas foram pipocando como pipocaram antes os guarda-chuvas. Amedrontado, ele subiu no sombreiro assistindo a noite, enquanto os carros atravessavam. Todos continuavam correndo, mesmo estando como ele: desprotegidos e vulneráveis. Todos continuavam correndo, dentro dos carros ou dos sapatos. A chuva louca e o homem lhe deu as mãos. Era dançando que ele estava, em um ritmo fora do gosto popular, que talvez algum povo longínquo tivesse dançado um dia louvando algum Deus Chuva.
Pelo fim da tempestade, as ruas estavam repletas de bagunça, muitos restos de sombrinhas, artifícios, maquinários guarda-chuvescos; a avenida se tornou cemitério de bugigangas e papel molhado.
Finalmente compreendera tudo, pensou ao ouvir uma gargalhada do vento bem escondida. Tinha escutado, era a risada do vento e ninguém mais sentiu. Pulou da árvore, catou o restos, juntou ao pé do sombreiro todo o cemitério de quinquilharias. Ao terminar, sem saber ficou rezando à sombra daquele montante. Tudo o que mais cedo era impedimento e proteção dos velhinhos prevenidos, das senhoras donas de casa e estudantes inumeráveis agora era seu grande Tóten, o seu santuário de guarda-chuvas e folhagens.
Enquanto a noite avançava, as nuvens iam dissimulando e o céu virando estrelado - o vento bufão prosseguia. O que passava na cabeça do homem, difícil saber. Mas assim, parece, que os cidadãos chegaram em casa rancorosos, cheios de amargura nas costas enchuviscadas. Não foi isso com o homem cabeçudo e baixa estatura, foi o impossível que pousou nele. Foi alguma festa antiga, perdida agora pelos museus, uma alegria antiga, de antes mesmo das cidades. Foi o homem relembrando a Delphinus, no meio do mundo no céu se criando a constelação Delphinus.
E até chegar o fim da noite, o sombreiro amigo ia para trás e para frente, os galhos as flores, no baile do vento, curvando-se ao homem e seus andrajos.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Bazar de comboios

Amei a vida de maneira insensata
faltou-me a lucidez dos que vestem fumaça
como são espertos! entendem muito de calendários,
o meu caso é pobre contrário
de doer na alma que eles não têm...
Brotei entre emaranhados de agapanto
só o vento me sabia soprar
Tiveram mais sorte:
eram carregados carrinhos de bebê!
Meu coração balançando
entre uma ponta e outra dos cântaros
Eles carregados por edifícios colossais
automóveis todas as gerações
pedra cimento arenito
Eu na melancolia dos poetas...
eles iam sendo carregados
tão largas avenidas
extensos boletos bancários
iam carregando a todos.
Nas manhãs assim deitado
um colorido me amanhecia
em várias formas de canção
esparramado pelos prados.
Pra eles veio o caixão,
e foram todos carregados.

domingo, 2 de março de 2008

A Folhagem

Ó todas as coisas vãs, todas as coisas mudáveis
Na árvore do meu quintal
as flores nascem silenciosamente
No alto do pé de goiaba
percebe-se o rastejar da taturana vermelha
engalfinhando a folhagem
Nada que da terra não tenha nascido
a areia já não tenha engolido!
A vida é um sonho: eólica, etérea
impraticável
Se o que vês é a aurora, o orvalho
- não importa
é tudo a mesma folhagem, verde: infinita
bendita a flor rebentando em silêncio
bendito o meu coração, que em silêncio bate.

A Feira

Meu jeito de gostar, não deu outro
a moça vinha pela janela
passando como o mundo lhe ajoelhasse
toda quarta-feira, na rua das minhas mandiocas
foi como se acaso sempre passeasse também nestas
avenidas mais internas, mais um pouco minhas...
É que se o bom deus permitisse, daria a ela
meus dois tempos de hora vaga
só pra fazer-lhe os caprichos
só pra fazer-lhe as vontades
mas ai, ai de mim
que não me atrevo a penetrar na bruma de uma criação.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Mestre-Sala dos mares

Na cidade do Rio de Janeiro o céu era claro e receptivo. No imenso areal da praia de botafogo, muitas pessoas sentadas esperando a chegada de um velho morador. O homem que vinha em seu barco veleiro, atravessara o nosso oceano atlântico de uma ponta à outra, na serenidade de quem põe bastante amor no simples bufar e mover das águas. Era um fim de tarde festivo porque sete anos havia que o homem não pisava os pés naquela areia, que tuas sobrancelhas não se fechavam ante a queda dos artistas em nome de haveres. Sete anos que o fizera esquecer de tratados e ensaios e academias, mas lhe ensinara a doçura das pedras de Borgou; tidas como sementes da vida pelos povos de Oió, que pela manhã as acariciavam e jogavam para além do riacho vermelho, para que do chão brotassem novos sonhos, bichos... e montanhas pra dar sombra aos filhos dos seus. Sete anos que afiada faca descia os cactos ao chão, e que bem sentia a ferocidade dos homens: tanto na fineza dos braços, quanto no que tinha causado às canções mais urbanas... às canções mais tribais, todas elas, agora porta-vozes de hecatombes.
Do décimo andar do edifício em frente à baía, uma gente forçava a visão, diz-se ter pegado até binóculo pra assistir atenta aquele retorno. O homem tomou fama sem um motivo único, por algum tempo foi assunto nas bancas e nas padarias, passando aos pescadores e estudantes, mais tarde o rumo perdeu-se e em torno de si as prosas pariam lendas, davam luz a subterrâneas esperanças e fascínios. Enquanto rompia a brandura daquela água suja, o sibilar das moças, ansiando a chegada de um legítimo filho de Oxóssi tomava o espaço da barulheira urbana.
Era também certo, que ao partir teria deixado no sangue de amigos o teu próprio sangue, o próprio não sabe-se o quê de semblante ou maneira; e isso se deu na América, e da mesma forma nos emirados de Daomé. Era o caminho doloroso das coisas.
Na mesma areia, uma pequena roda entoava sambas. Ao lado, um cachorro latia. Já enxergavam a face: de longos cabelos, a barba e sua delineação bem cuidadosa que a outra margem lhe prestara. Quando de sua chegada, uma embolação de gentes e sentimentos; as moças em braços afoitos, em assovios tristonhos, amigos berrando saudades, erguendo copos, prendendo lágrimas; o rio da memória correndo veloz, perdidamente...
Então pisara o chão endurecido, seco como seus olhos, firmes como aquela glória de si mesmo, e num primeiro gesto ante todo o calor da vida, tirara do bolso umas pedras de Borgou, e arremessando-as longe, sob a vigília do sol e a atenção das marés, sentiu no peito a respiração, e todo vento fazendo as rotas do mundo.
Por final, naquelas pedras de Borgou como estrelas de marfim, vibrava em sua veia toda a certeza das montanhas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A fotografia ganha um pouco de dignidade que lhe falta, quando deixa de ser reprodução da realidade e nos mostra coisas que não existem mais.

agapanto

Quem sou eu